Composição e Linguagem – Reflexões

Sobre Fotografia

Composição e Linguagem – Reflexões

“… Não existe a melhor e nem uma única forma de se fotografar… ”
Renata Mello, Photo & Câmera nº 06, fevereiro de 2000.

O que a câmara fotográfica faz é pegar um pouco das coisas que nos rodeiam e transformá-las em imagens. A câmara “vê” as coisas de um modo diferente do que nós vemos, ou melhor, ela “vê” igual, mas, registra a imagem diferente.

O que nós vemos são coisas com volume, tridimensionais, e que estão colocadas a diferentes distâncias dos nossos olhos. Na imagem que a câmara fotográfica produz todas as coisas estão a mesma distância de nossos olhos, na superfície do papel. Precisamos ver como a câmara para saber qual será o resultado da fotografia que estamos fazendo, precisamos olhar os objetos e imaginá-los num espaço, sem volume e sem profundidade, como vão aparecer depois em nossas fotos.

A visão humana funciona em um sistema de varredura. A melhor representação da forma de ver do homem está na obra de Pablo Picasso: as formas, à primeira vista distorcidas, de rostos fragmentados, são na essência o nosso modo de ver.

Figura 01

Quadro cabeça de mulher. Pablo Picasso – Imagem da WEB

Se fixarmos nosso olhar, por algum tempo, sobre um único ponto de um objeto, este desaparecerá. Só podemos ver fazendo uma leitura dos objetos. A fotografia faz parte do nosso olhar. Quando escolhemos um determinado momento, um determinado ângulo, estamos separando uma pequena parte de nossa leitura da cena, colocando-a no papel, sem profundidade, com todos os objetos no mesmo plano (na mesma distância dos nossos olhos, sobre a superfície do papel). Uma frase atribuída a Confúcio faz uma afirmação que, a princípio nos parece incontestável: “Uma imagem vale mais que mil palavras”.

“Uma imagem vale mais do que mil palavras. Vai dizer isto com uma imagem”. Millôr Fernandes

Talvez sim, se tanto a foto quanto as mil palavras forem produzidas pela mesma pessoa. Por mais comum que seja o acontecimento, nunca ele vai ser descrito (tanto por foto como por texto) da mesma forma por duas pessoas. Haverá verdade tanto nos textos quanto nas imagens das duas pessoas, mas esta verdade nunca será absoluta, será a verdade de cada um.

Quando isolamos um pequeno fragmento do que estamos presenciando para colocá-lo em nossa foto, estamos gravando o nosso modo de ver e de entender a vida, que por sua vez traz toda nossa formação, nela incluídas nossa educação familiar, escolar e nossa bagagem cultural.

“Qualquer narrativa não corresponde ao real”. MARANHÃO, Jorge. Manifestações de junho no Brasil. Rede Globo, Na Moral, set 2013. Disponível em: Globo. Acesso em: 21 abr. 2018.

“Eu com a Fotografia posso contar a história que eu quiser… E se eu acreditar que ela é a prova absoluta da verdade… eu estou mentindo sem mentir.” PERSICHETTI, Simonetta. Apresentação do Curso Pensadores da Fotografia. Disponível em: Eduk. Acesso em: 21 abr. 2018.

Portanto, a obrigação do fotógrafo é com a sua “verdade”, é a de registrar o seu tempo de acordo com o seu modo de ver. O importante é procurarmos transmitir uma mensagem, seja qual for a nossa tendência, da foto jornalística ao registro familiar, passando pelas fotos abstratas. Todas as imagens devem dizer alguma coisa. Para criá-las, o primeiro passo é descobrir exatamente o que queremos transmitir. Uma boa maneira é perguntarmos para nós mesmos: “o que eu quero fotografar? Uma pessoa, coisa ou acontecimento; ou o que esta pessoa, coisa ou acontecimento representa?”

A figura 2 demonstra bem isto.

Figura 02

Foto: Dilmar Cavaller. Agência JB

Ao gravar esta cena o fotógrafo não queria mostrar o grupo de choque ou retratar o rapaz, mas transmitir o sentimento de impotência do grupo de manifestantes, do qual o jovem fazia parte, frente ao aparato policial mobilizado para impedir a manifestação.

O jornal do Brasil utilizava a fotografia não apenas como ilustração, más principalmente como parte da notícia. Nas Três fotos sequentes, podemos observar mais exemplos onde a pergunta chave se encaixa bem.

Nesta primeira foto, figura 3, ao fotografar a asa delta sobre o braço do Cristo, Luiz Carlos David transmite toda a beleza e a alegria de um dia de verão, tanta beleza e tanta paz que nada de mal pode acontecer, pois até Deus protege o homem-pássaro.

Figura 03

Foto: Luiz Carlos David. Agência JB

Na figura 4, ao gravar o contrito beijo no Crucificado, Rogério Reis, com uma única imagem, transmite toda a fé e sentimentos cristãos durante a Semana Santa.

Figura 04

Foto: Rogério Reis. Agência JB

Nesta terceira imagem, figura 5, Geraldo viola demonstra em apenas uma foto (tendência do Jornal do Brasil de transmitir toda a informação em somente uma imagem), Toda violência de nossa sociedade: é sexta-feira, dia 09 de janeiro de 1981 (apesar de passados 26 anos, tanto a imagem como a mensagem continuam atuais). Em um cerco a três marginais numa favela carioca, um grande contingente de policiais utilizando armamento pesado (tão comum nos dias em que vivemos), trava um duelo com os bandidos. O tiroteio, que teve até rajadas de metralhadoras disparadas por policiais a bordo de um helicóptero, terminou com a morte dos marginais. Nesta fotorreportagem, temos todos os elementos da tragédia: ao fundo, com pouca iluminação, está o criminoso, que ao mesmo tempo é algoz e vítima da violência: em primeiro plano, o policial, repressor e simultaneamente agente da violência. Apoiado displicentemente em sua perna o instrumento da dor e da Violência. Finalmente, um pequeno detalhe, quase despercebido à primeira vista, mostra o que talvez represente a causa maior da violência em nossa sociedade: o pequeno e fumegante cigarro, que pende dos dedos do policial, ao alto, no canto esquerdo da foto, demonstra sua total indiferença: a consumação do prazer, o cigarro relaxante, “o cigarro de depois”.

Figura 05

Foto: Geraldo Viola. Agência JB

Voltando as indagações, outra pergunta que deve ser feita consiste em resolver o problema detectado na pergunta anterior: “o que eu quero mostrar está bem claro? Está bem na minha frente ou muito longe? Está escondido por outra coisa qualquer? Existem elementos que atrapalham o entendimento da mensagem? Se existem, como afasta-los?”

O General em Continência

Agora apresentamos na íntegra transcrição de texto publicado no Jornal do Brasil do dia 04 de janeiro de 1982, referente à figura 6.

“Numa ensolarada manhã do Planalto, na cidade satélite de Ceilândia, o Presidente foi inaugurar um hospital. Um palanque abrigava as autoridades presentes. A Assessoria de Imprensa da Presidência da República informava aos jornalistas que não seria permitida a entrada de fotógrafos no hospital, que Figueiredo visitaria após a inauguração.

– Ora – conta agora o fotógrafo Jair Cardoso – se o Presidente veio inaugurar um Hospital e eu não posso fotografar o próprio, o que eu estou fazendo aqui? A solução era inventar algo. Começou a solenidade e o Hino Nacional estava sendo executado quando, olhando pelo visor da máquina, senti que ali estava a foto. Figueiredo em primeiro plano, tendo atrás de si o General Venturini em continência. As duas figuras se enquadravam numa só. Era só uma questão de ângulo. Imediatamente coloquei a “zoom” e puxei tudo. Era o que eu queria. A foto, publicada no dia seguinte na primeira página do JB causou impacto. Posteriormente, o comitê de Imprensa do Palácio do Planalto, resolveu fazer uma homenagem ao presidente, expondo algumas fotos, cerca de 50, nas dependências da sala de Imprensa. Entre as fotos expostas, a minha foi a única a merecer censura pelo assessor de impressa. O fato foi levado ao conhecimento do General Venturini, que ficou surpreso, já que ele mesmo havia gostado da foto e não via nela nada de anormal. Para surpresa de todos, entretanto, num final de expediente no Palácio, toda as fotos foram retiradas”.

Pelo depoimento do fotógrafo podemos acompanhar o seu raciocínio: primeiramente detectou o problema (o que eu quero mostrar, que podemos traduzir de: “…o que eu estou fazendo aqui”); depois solucionou o problema: no caso, as duas figuras se enquadravam. Mas era preciso acertar o ângulo e achar os planos – “Imediatamente coloquei a “zoom” e puxei tudo”.

Nesta foto, ele utilizou uma câmera F2 com filme Tri-x 400 ISO e uma objetiva “zoom” 80-200mm. As teleobjetivas provocam um fenômeno ótico chamado de achatamento de planos, que resulta em uma imagem sem profundidade, com todos os elementos (primeiro plano e fundo) no mesmo plano. Quanto maior for a distância, em milímetros, do centro ótico da objetiva ao plano focal, maior será este efeito. Quando o fotógrafo diz” puxei tudo”, indica que colocou a maior tele daquela “zoom”.

Figura 06

Foto: Jair Cardoso. Agência JB

Um homem de mil expressões

 O ex-presidente Jânio Quadros estava sendo homenageado, pelo seu aniversário, com um jantar oferecido pelo PTB, em São Bernardo do Campo. Máquina no rosto, olho no visor, o fotógrafo Fernando Pereira permaneceu quase uma hora fotografando, atento a cada gesto ou expressão do ex-presidente.

– senti – conta Fernando – que tinha um grande material. E de Lá mesmo liguei para o chefe de reportagem. A foto foi selecionada entre várias apresentadas à chefia e ganhou a primeira Página. Foi publicada em outros órgãos de imprensa.

Para conseguir esta foto, figura 7, Fernando Pereira, que usou a câmera Nikon F2, com filme Tri-x 400 ISSO, velocidade 1/60 seg. diafragma 8, após captar o que fotografar (a personalidade controvertida do ex-presidente, também revelada na foto de Erno Schneider captada muitos anos antes, figura 8), resolveu o problema, procurando em cada gesto ou expressão do retratado a imagem que revelasse todo o seu interior.

Figura 07

Fernando Pereira r
Fernando Pereira. Agência JB

Figura 08

Erno Schneider
Foto: Erno Schneider. Agência JB

É claro que este tipo de percepção exige muito tempo, treinamento, dedicação e uma boa dose de criatividade. Um bom exercício para desenvolvermos a nossa percepção fotográfica é sairmos pelas ruas fotografando com o olhar, procurando captar nas cenas mais comuns do dia-a-dia imagens bonitas e ímpares. Devemos sempre procurar colocar em nossas fotos algo que chame a atenção, algo que as torne diferentes e atrativas, dizendo alguma coisa a alguém.

Nota – Este Artigo redigido em 1984, para complemento das minhas aulas no SESC e no SENAC-Rio, e revisto recentemente, permanece atual mesmo com toda revolução provocada com a consolidação da Fotografia digital. Permanecerá relevante mesmo no futuro quando os filmes e câmeras como as clássicas Leicas (M3, M7 e a MP – Lançada em 2003), – que ainda registem e vão ficar por um bom tempo, muito além da onda vintage atual – e que um presumível novo sistema de captação de imagens, coloque obsoletas as modernas câmeras digitais atuais. O olho humano atrás do visor (ou outro dispositivo qualquer), e o “saber Ver”, sempre serão os elementos que farão a diferença entre uma obra Fotográfica e uma mera imagem ilustrativa.

Carlos Nogueira

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Comunicador social com Licenciatura para o ensino Técnico pelo Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro; Repórter Fotográfico; Professor de Fotografia; Artista visual; Revisor Técnico de livros sobre fotografia; Consultor, Especialista em Formação Profissional Continuada pelo SENAC-Nacional; Ex-Professor, Coordenador (dos cursos de Fotografia e da área de Propaganda), Diretor (dos Centros de Formação Profissional especializados, em Administração e em Hotelaria), do SENAC-Rio. Ex-Coordenador dos CETEPs Irajá e Vaz Lobo - Centros de Educação Tecnológica e Profissionalizante - da FAETEC. Diretor Técnico do CECAP Escola de Artes – Centro de Estudos, Capacitação, Aperfeiçoamento e Consultoria, Artística e Profissional - e do CVT Campinho -Centro de Vocação Tecnológica - da FAETEC.

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